Prince
Wadada é um nome que se confunde com a cultura dos
soundsystems portugueses, sendo um ícone importante na
recente e forte afirmação do reggae no nosso país.
Exímio vocalista
raggamuffim, ex-membro do projecto “Linha da Frente”, partilhou
o palco com músicos como Gentleman & Far East Band, Melo D
e Charly Skank Band, acrescentando à sua carreira um vasto leque
de participações em trabalhos de Kussondulola, Bad Spirit, Cool
Train Crew, Eduardo Paim, Germaican Soundsystem, entre outros.
A
vibração é profunda, mas não tão profunda como a alma que se desprende
da voz rouca de Prince Wadada que tem agarrada ao seu timbre a
cor própria de Angola e o doce balanço de uma terra imensa que
se espraia em cada canto de “Natty Kongo”.
Wadada é uma voz conhecida de todos os que seguem com um mínimo
de atenção as sinuosas viagens do som reggae/dance-hall em Portugal.
Como toaster de serviço ao Dubadelic Soundsystem, Prince Wadada
tem percorrido todo o país, colocando certeiras palavras naqueles
pontos em que o groove pede uma intervenção mais afirmativa. Com
o microfone bem dominado, Wadada integra-se numa longa tradição
de “deejays” que, desde a Jamaica clássica até à Zion global dos
dias de hoje, tem feito muito para impôr uma vibração positiva
neste planeta. Mas mais do que explorar exaustivamente uma determinada
tradição ou atitude mais específica, Wadada tem preferido abraçar
a música com um entusiasmo puro que lhe permite coleccionar no
seu currículo colaborações com gente tão distinta como os Kussondulola
(com quem gravou em 1999), o “supergrupo” Linha da Frente ou,
mais recentemente, os Mentes Conscientes, projecto paralelo dos
veteranos hip hoppers Micro.
Para lá dessas colaborações gravadas, Prince Wadada foi pisando
o palco ao lado de projectos como Gentleman and far east band,
coolHipnoise, e General D. E a ligar todos esses momentos o que
se encontra é a procura de uma voz e um lugar próprio. Primeiro
com a edição de “Kem é Kem”, o seu registo de estreia, em 1998,
seis bem preenchidos anos depois, chega “Natty Kongo”.
As influências originais recebidas de gente como Yellow Man ou
Buju Banton continuam presentes, mas o mais interessante da estreia
de Prince Wadada é o facto de ao adoptar a linguagem do Roots
Reggae como ponto de partida ele conseguir, ainda assim, criar
um som que cruza múltiplas referências – culturais, geográficas,
musicais e até espirituais. Claro que o balanço principal de “Natty
Kongo” é puro Roots, mas há ecos de drum n’ bass, acid jazz, dancehall,
hip hop e até de clássicas baladas rock and roll (escute-se, por
exemplo, “Anabela Toi et Moi”). Para tanto contribui o facto do
disco ter sido gravado num descontraído ambiente “live”, em Faro,
no estúdio Air-Born pelo técnico Edwin Spellbrink. A mistura final
e a masterização ficaram a cargo do veterano Joe Fossard que será
igualmente o responsável pelas versões dub que serão editadas
mais tarde. A excepção surge no tema “Poder da Kriação”, com um
beat e uma rima de D-Mars, que assim retribui a participação de
Wadada em “A Cidade Respira” dos Mentes Conscientes. Trata-se
de um tema de demanda espiritual sobre ritmos sintéticos cozinhados
num sampler. Homem capaz de aguentar o impacto de Soundystems,
Wadada, claro, não estranha a mudança de cadência de um disco
construído essencialmente com o resultado da interacção de uma
série de músicos.
A ponta de lança desta colecção de canções é, claro, “Táxi Para
Luanda”, o single que tem coleccionado uma invejável carreira
nas listas de airplay das mais significativas rádios nacionais.
Hino à saudade dedicado a todos quantos, como Wadada, largaram
Luanda à procura de um sonho. Mas Wadada está de olhos bem abertos
e “Natty Kongo” foi uma conquista bem real. Acreditem…
Os direitos fundamentais do Homem são o principal foco de atenção
num trabalho onde momentos de fúria se transformam num grito de
apelo à paz e o amor coabita com a rebeldia transmitindo as linguagens
do reggae e do dance-hall em português com sotaque de Angola.
“Entendimento” é um trabalho apurado que reflecte emoções, batalhas
e relações que se travam todos os dias numa sociedade cada vez
mais intolerante, violenta, oportunista e individualista. Influências
da música espiritual rastafariana mantêm-se presentes, como ponto
de “Entendimento” tal como em trabalhos anteriores: “Kem é Kem”
(1999) e “Natty Kongo” (2004).
Wadada é o compositor da totalidade das faixas, tendo a interpretação
instrumental ficado a cargo da “Kimbangui Band”, composta por
músicos como Nuno Reis (ex-Cool Hip Noise), Ian Muzcnick (ex-Los
Tomatos), Batata e Pardal. Temas como “ Jah Já Sentiu” com a participação
de Marta Ren (Sloppy Joe) e “ Aldeia” com a força especial de
Bezegol (MatoZoo), proporcionam uma viagem onde a positividade
reina.
A experiência do teclista Charly Skank, músico/produtor de invejável
currículo (trabalhou com Alpha Blonde e Wailers), veio enriquecer
um trabalho certamente apreciado por todos os amantes da música
Jamaicana. A percussão ficou a cargo de Ndú que emprestou a sua
alma a este trabalho.
O disco foi gravado nos estúdios The Vault em Matosinhos, representando
uma marca importante para a Matarroa, a sua décima edição em pouco
mais de 2 anos de forte representação indepedente na música portuguesa.
Ficha Técnica:
Prince
Wadada “Entendimento”
MATARROACD010
Produção: Charly Skank & Kimbangui Crew
Gravado, misturado e masterizado: The Vault
info@matarroa.com
www.matarroa.com
Distribuição: www.sohiphop.com.pt
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